Análise de Conjuntura nº 03/2026 - As Jornadas de Outubro e o segundo turno de 2026

Consolidado em 31 de outubro de 2026.


As Jornadas de Outubro e o segundo turno de 2026


1. Resultados:

O principal resultado do segundo turno foi a reeleição de Lula à presidência, numa virada inédita e histórica em relação ao primeiro turno. Lula venceu em todos os estados do Nordeste, no Amazonas, no Pará e no Amapá, na região Norte, além de Minas Gerais, estado onde perdeu no primeiro turno. Além disso, conquistou a vitória em capitais de estados onde Bolsonaro ganhou, como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, e também em outras grandes cidades, conquistando principalmente o voto das periferias, o que indica o perfil predominantemente proletário de seu eleitorado.

No segundo turno obteve 10,4 milhões de votos a mais que no primeiro, o que representa 8,3% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro venceu em todos os estados do Sul, Sudeste (menos em Minas Gerais) e Centro-Oeste, além de Acre, Roraima e Rondônia, na região Norte. Flávio Bolsonaro também venceu nas capitais e nas grandes cidades desses estados e regiões, mas seu voto foi predominante nas pequenas cidades e regiões dominadas pelo agronegócio, evidenciando a força da extrema direita no interior e entre as classes sociais hegemonizadas por essa fração do capital. No segundo turno o candidato da extrema-direita obteve apenas 3,7 milhões de votos a mais do que no primeiro turno, o que representa 2,98% dos votos válidos. Nas eleições para governadores, o segundo turno, ocorrido em seis estados, confirmou a primazia do Centrão na esfera estadual, ainda que menor do que em 2022, pois caiu de 15 estados em 2022 para 13 em 2026, a forte posição institucional da extrema-direita, que cresceu de cinco para dez estados, e a derrota significativa da esquerda, que caiu de sete estados em 2022 para apenas 4. Em termos gerais, podemos dizer, que os dois turnos revelam o forte avanço político, institucional e ideológico da extrema-direita, que, apesar da grave derrota nas eleições presidenciais, conquistou nada menos que 48% do Senado, 33,7% da Câmara e, como vimos, 37% dos governos estaduais. 


2. Razões para a vitória histórica e inédita de Lula no segundo turno:


Lula ganhou por que representou o antibolsonarismo, representou a barragem à volta da extrema direita e seu projeto de fechamento do regime e de radicalização do neoliberalismo. Por conta disso, galvanizou as maiores manifestações populares de que se tem notícia, atraindo trabalhadores, juventude, aposentados, etc. Essa ampla mobilização, ocorrida nas grandes, médias e mesmo em pequenas cidades, foi capaz de atrair parte do voto dos que votaram branco ou nulo no primeiro turno, parte dos votos dados aos outros candidatos de direita e levar a votar parte dos que se abstiveram. O caráter classista desse voto se impôs de modo majoritário, revelando que os trabalhadores e demais camadas populares ficaram ao lado de Lula, apesar dos resultados pífios, em termos de direitos sociais e melhoria das condições de vida, apresentados por seu terceiro governo. Além do claro perfil antifascista e anti corrupção, as Jornadas de Outubro apresentaram um perspectiva antineoliberal, manifesta na defesa de mais verbas para a saúde e a educação, na defesa dos direitos sociais e trabalhistas, pelo fim da escala 6x1, contra o “tesouraço” e a redução de impostos proposto pelo candidato adversário. Também fez parte da pauta a defesa da soberania nacional, contra a interferência do governo Trump e das big techs estadunidenses nas eleições brasileiras e a entrega dos recursos naturais e dos bens públicos do país para o capital externo. As Jornadas de Outubro contaram ainda com o aporte de ampla mobilização nas redes sociais, numa verdadeira operação de guerra contra o boicote das big techs e da presidência do TSE à candidatura Lula, demonstrando que a disputa política e ideológica no terreno digital não é mais monopólio da extrema-direita.

A força política e ideológica das Jornadas de Outubro se deveu à sua autonomia em relação ao governo, ao PT e demais aparelhos político-institucionais do lulismo, indo muito além de partidos, sindicatos e movimentos sociais. Em sua mobilização prevaleceu a a autoorganização a partir da base, em formas descentralizadas e espontâneas de articulação e ação, mobilizando pequenas organizações, grupos de pessoas e mesmo indivíduos que se colocaram em movimento nas ruas e nas redes para impedir a volta da extrema-direita ao governo. Fenômeno semelhante também havia se dado nas eleições de 2022, mas agora assumiu proporções inéditas. O caráter autônomo e ao mesmo tempo espontâneo dos atos, passeatas e manifestações permitiu às Jornadas de Outubro exercer um grande poder de atração sobre setores sociais até então desmobilizados e alheios à disputa política, conferindo nova qualidade às mobilizações populares do período recente e à própria campanha eleitoral, tornando-se o fator decisivo da vitória de Lula.

Outro fator a se destacar para a vitória de Lula foi o desnudamento do “sujeito oculto” do programa de Flávio Bolsonaro, qual seja, a radicalização do programa neoliberal extremado “à moda Milei”, com brutal corte de gastos e direitos sociais, desregulamentação total, privatizações e entreguismo frente ao imperialismo estadunidense. Também vieram à tona os inúmeros casos de corrupção, fraude e lavagem de dinheiro envolvendo o próprio candidato e seus aliados próximos, revelando o caráter intrinsecamente corrupto do bolsonarismo. Neste processo de desmascaramento, a mobilização nas redes sociais e a campanha eleitoral de Lula no segundo turno tiveram papel proeminente, mas é preciso destacar a postura crítica de setores da grande mídia que queriam levar a eleição para o segundo turno, mas não queriam a vitória do bolsonarismo. A mesma mídia e os mesmos setores do capital que naturalizaram a candidatura Flávio, tendo um comportamento leniente ou mesmo de apoio dissimulado no primeiro turno, passaram a denunciar seu não compromisso com a “democracia”, leia-se a democracia restrita vigente no país, e a duvidar da exequilibidade do seu “tesouraço”. Com isso, também contribuíram para o enfraquecimento de sua candidatura junto a setores do eleitorado, particularmente aqueles que viram nos outros candidatos de direita representações de uma suposta “terceira via” e optaram votar em Lula. Como dissemos em outro texto, os setores do capital não-bolsonarista que alimentaram esta postura queriam levar a eleição para o segundo turno para arrancar de Flávio Bolsonaro o compromisso com a manutenção da democracia restrita, abandonando seu projeto de endurecimento do regime, e de Lula o compromisso com a radicalização do projeto neoliberal. No entanto, as Jornadas de Outubro penderam a balança em favor da segunda alternativa. Não à toa, na manhã seguinte à eleição começaram as pressões por parte desses setores e da chamada “Faria Lima” para que Lula indicasse seu novo ministro da Fazenda para “acalmar” os mercados e indicasse como vai lidar com o aumento de gastos promovido durante o processo eleitoral. Pressão imediatamente atendida, diga-se de passagem. No momento em que escrevemos, o governo se compromete a promover mais um ajuste fiscal, ampliado o superávit primário em 2027, do piso para o centro da meta.


3. Cenários possíveis:


O cenário pós-eleitoral é eivado de contradições, abrindo algumas possibilidades alternativas de futuro. Em primeiro lugar, é preciso considerar que as Jornadas de Outubro colocaram o governo Lula IV sob permanente contradição. De um lado, a perspectiva antifascista e de soberania demonstrada pelas manifestações e pela votação que garantiu sua vitória colocam para o governo o desafio de reverter a pauta política e econômica do Golpe de 2016 (democracia restrita e neoliberalismo extremado), promovendo um processo efetivo de melhoria das condições de vida e trabalho, com medidas efetivas de distribuição de renda e melhoria salarial, a restauração e ampliação de direitos sociais e trabalhistas, o resgate de direitos políticos e civis, o combate ao colapso ambiental, o enfrentando efetivo da extrema direita e a defesa efetiva da soberania. Esta “guinada à esquerda” torna o movimento popular sujeito principal na sustentação do governo, permitindo-lhe enfrentar as pressões neoliberais partidas de todas as frações do capital, sedentas pelo aprofundamento da exploração sobre o capital e a privatização dos recursos e bens públicos, “emparedar” o Centrão no Congresso e isolar politicamente o bolsonarismo. Esta opção daria enorme respaldo popular ao governo, dificultando novas tentativas golpistas e abrindo caminho para a superação da República de 2016.

De outro lado, o “modo petista de governar”, historicamente baseado na política de conciliação de classes, mesmo em condições pioradas como no governo Lula III, além da ampliação da frente ampla com setores do Centrão, promovida no último período, favorece a opção pela acomodação com as demandas do capital (democracia restrita e mais neoliberalismo), reforçando o apoio dos setores do Centrão que apoiaram a candidatura Lula e atraindo os setores que apoiaram a candidatura Bolsonaro, permitindo a criação de uma base parlamentar mais sólida do que a atual, porém igualmente instrumental. Neste cenário as demandas populares seriam atendidas à conta-gotas e de maneira oportunista e eleitoreira, como no atual governo Lula III, configurando um verdadeiro estelionato eleitoral. Nesta situação o governo permaneceria fraco e suscetível às pressões golpistas a partir de dentro e de fora do país, além de manter a extrema-direita viva como força política e eleitoral.

 A derrota eleitoral representou também uma derrota política (momentânea?) para o bolsonarismo. As Jornadas de Outubro tiveram o dom de esvaziar a perspectiva golpista do bolsonarismo expressa no questionamento do resultado da eleição e na esperança de que a mesma teria ampla adesão interna e externa. Todas as forças do espectro político reconheceram os resultados, inclusive partidos opositores do governo e o próprio PL, além da maioria dos governos pelo mundo afora, inclusive governos de extrema direita da América Latina (AL). A fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA a fim de escapar da provável condenação e prisão, por conta dos processos que correm contra si, apenas reforçaram essa derrota. Apesar de ainda não reconhecer o resultado das eleições e de acolher o candidato derrotado como uma espécie de asilado de luxo, o governo Trump não o reconhece como presidente eleito, além de reabrir canais de negociação com o governo Lula acerca do tarifaço e das questões diplomáticas pendentes. É fato que o governo Trump vive uma situação de fragilidade neste momento por conta da baixa popularidade e da provável derrota nas eleições parlamentares de meio de mandato, que se avizinham, favorecendo uma postura de acomodação com o governo Lula. Mas nada garante que não possa voltar à carga com novas tarifas, sanções econômicas, iniciativas de choque sobre a moeda brasileira e pressões diplomáticas a fim de desestabilizar o governo Lula IV e favorecer a extrema-direita. Afinal, o projeto do governo Trump para a AL é de enquadramento total da região como sua área de influência na disputa geopolítica global. A derrota política do bolsonarismo abre espaço para que outras lideranças busquem assumir a direção da extrema direita, numa disputa política acirrada de consequências ainda imprevisíveis. Esta disputa está colocada no interior do próprio bolsonarismo. De todo modo, graças ao seu avanço político-institucional, a extrema direita mantém forte capacidade de oposição ao atendimento de toda e qualquer demanda oriunda das pautas populares e capacidade de instabilizar a situação política numa chave golpista, com apoio externo ou não.


4. Tarefas:


  Em qualquer dos cenários futuros prováveis o conteúdo de auto-organização e autonomia política apresentado pelos trabalhadores e demais camadas populares nas Jornadas de Outubro precisa se manter, criando redes de mobilização e articulação conjunta entre as inúmeras organizações e iniciativas localizadas que se colocaram em movimento na campanha eleitoral do segundo turno. Mesmo no cenário mais favorável, a guinada à esquerda do governo Lula IV, a mobilização popular permanente é fundamental para garantir o atendimento da pauta dos trabalhadores, abrir caminho para a superação da República de 2016 e ir além. Sem pretensões hegemonistas e sem aparelhismo, a esquerda socialista organizada pode cumprir o papel estratégico levantando pautas que conectem as questões imediatas que dizem respeito às condições de vida do povo com a perspectiva anticapitalista, chamando mobilizações em torno dessas pautas e tentando articular a unidade de ação da grande frente política e social surgida com as Jornadas de Outubro. Neste sentido, é possível que a mudança de qualidade na mobilização popular gerada pela campanha eleitoral se desdobre numa alteração efetiva da correlação de forças em favor dos trabalhadores, contra a ofensiva do capital e contra a ameaça fascista. Os ventos que sopram de diversos lugares do mundo indicam que esta virada histórica é possível. Todos à luta!


FORA FASCISTAS! 
CONTRA O ESTELIONATO ELEITORAL! 
PELO FIM DO NEOLIBERALISMO E DA AUTOCRACIA BURGUESA! 
PELA SUPERAÇÃO DA REPÚBLICA DE 2016! 
PELA INTERVENÇÃO, SUBORDINAÇÃO E CONTROLE INTEGRAL DA ESFERA BANCÁRIA E FINANCEIRA POR UM GOVERNO OPERÁRIO E POPULAR! P
ELA SOBERANIA NACIONAL! 
PELO SOCIALISMO!